quinta-feira, 19 de novembro de 2009

AVES....


Tão simples!... Fôssemos aves
e a vida era só voar
por céus de tintas suaves
que ninguém sabe pintar.



Fôssemos bichos do monte
em vez de sermos pastores:
tínhamos vinho nas fontes
e o prato-cheio das flores.


Fôssemos nós os ribeiros
tagarelas das quebradas,
não os tristes marinheiros
do mar das águas salgadas.


Fôssemos nós a candeia
de alumiar aos serões,
sem o mêdo da alcateia
e das rondas dos ladrões.


Fôssemos nós, meus amigos!
os gordos cachos das vinhas,
em vez de pobres mendigos
que pedem pelas alminhas.



Fôssemos como o pinheiro
tão assisado e plebeu:
que as pinhas são mealheiro
onde tem sempe de seu!



Fôssemos antes o foo
dalguma braza esquecida,
em vez de andarmos no jôgo
de luz e trevas da vida.


Fôssemos nós como as cabras,
as afilhadas da terra,
em vez destas feras bravas
com sêde e fome de guerra.


Fôssemos linho e frescura
para as arcas do bragal,
em vez desta carne impura
sempre em pecado mortal.


Fôssemos nós a vidraça
que é tão fiel para a luz,
em vez de sermos da raça
que pregou Cristo na cruz.


Fôssemos nós pedras mudas,
rudes, sem eira nem beira,
em vez de sermos o Judas
que se enforcou na figueira...

... Felicidade! ... Afinal,
fôssemos nós naturais
e limpos de todo o mal,
não era preciso mais!...


In "Caminhos" 1933

Poemas e Imagem disponibilizada internet

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Araras Azuis

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